quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Texto para ser mal-dito.


Prólogo para o delírio

Para que possa dizer voz preciso ser palavra?
Para que possa ocupar espaço preciso ser norma?


[Distância entre o que sinto e o que escrevo aqui num  formato para ser revisado às cegas.]

A quem é permitido livrar-se de citações e embasamentos? A quem é permitido o delírio que provém de certeza da incapacidade de fazer caber na palavra alguma coisa que é inegavelmente maior que ela? A quem é permitido lançar solturas no espaço palco papel tablado abandono de si citações certezas para tentar conectar com o que está ali sem ser coisa alguma que se possa conceituar.

[Pretensiosa querer ser eu a que não está aqui para citar.]


Abandonar conceitos para virar outra coisa que move de verdade.


Apesar dos conceitos seguimos fazendo o que não tem nome a não ser que seja nome provisório que se for provisório não escreva não escreva não escreva.

Dance o nome até que o nome caia.

[A uma mulher é permitido ser delirante sem que seja aquela tomada pela emoção aquela sem razão aquela sem a calma sem a paciência de estudar estudar estudar? Posso olhar e sentir e já querer logo transformar tudo em palavra negação de palavra fria? A uma mulher é permitido ser delirante sem que seja aquela louca?]

Não me permito falar sem estar totalmente afiada antenada lida e relida e estruturada em livros infinitos de pessoas que deixaram de citar. Em algum momento deixaram de. De tanto eles não eu. Silenciada. De novo. 

Posso eu deixar de citar?
Ex-citar.
Posso ser eu essa pessoa?

Delírio

Imaginem um teatro onde a gente sempre deve fazer um bom teatro segundo o que é fazer um bom teatro? Imaginem um teatro onde eu vejo tanto teatro que já sei o que é bom e sigo fazendo. Bom bom bom. E não há nada a ser quebrado nunca. Bom bom bom. E talvez fosse hora de não fazer mais teatro algum que quisesse ser bom. Talvez fosse hora de fazer teatro que quer ser muito ruim. Por que nós não cabemos mais no mundo. E por que insistimos num teatro que quer caber? Quer ser bom. Bom para quem? Bom  para o folheto semanal virtual limitado dezenas de pessoas que entendem que entendem outras dezenas que acham que deveriam entender outras dezenas que deveriam gostar e milhões que seguem sem nada a ver com isso.

O mundo quebrado partido com as coisas todas virando cacos e nós insistindo mosaico numa nostalgia que apenas nos serve numa nostalgia âmbar gelatinada onde fazemos vemos e nos damos importância.
Por que?
O mundo quebrado e queremos entender as paletas dos cacos e eu acho cada vez mais que deveríamos deixar pisar nos cacos e sangrar sangrar sangrar. Teatro ruim. Teatro podre. Teatro tosco.

Teatro sem técnica.
Voz sem técnica.

O desejo de destruir tudo que não seja tão vital quanto a respiração. Desejo de não falar mais a não ser quando a palavra vira ar. Desejo de não contar mais histórias. Desejo de mover o corpo até dar tonturas e da voz ser esse grito dessa tontura desse quase cair. Desejo de despencar no chão. Estatelado o ator frágil ao público. Ele pode ser nada. Sintoma dos corpos humanos que são nada. Tratados como nada. No teatro querem ser eternos esses corpos de arte e talvez fosse a hora de ser nem o agora. De ser só o antes. De ser só o que acabou de acontecer. Estatelados os atores olhariam para o público e estaríamos todos sem saber o que fazer nem para onde ir nem o que dizer. O ator saberia que ele deve estar aqui e o público deve estar lá (será?). E só. As ações breves e curtas. Para durar um instante que vira passado logo que acontece. Sem luz âmbar. Sem gelatina. Uma luz branca de hospital de repartição pública de guichê de banco de escola. O ator desmorona. Morre o corpo eterno e fica ali aquele punhado de vísceras.

Tiraram nosso camarim nosso espelho nossas luzinhas redondas. Tiraram nosso pano. O pano não cai. O pano não sobe. O pano não abre. Tiraram nosso palco e agora somos chão. Sem ponto sem texto sem guarda volume sem cadeira sem almofada sem refletores sem pianos. Sem pessoas. Sem nada. Sem ninguém. Mas nós estamos aqui fingindo que.

Teatro tosco precisa parar de fingir que.

Precisa mostrar maquiagem que foi feita num canto qualquer com luz qualquer o figurino qualquer do brechó qualquer.

Eles precisam saber que sobramos nós e eles apenas e que estamos juntos nessa tarefa de dar conta da luz branca e dos guichês.

Mas que nossos guichês estão vazios do lado de lá. Não sobrou ninguém.

O chão a fita crepe o retalho a maçã mal lavada num bacia e a gente fingindo que.

Um instante, senhoras e senhores, já voltaremos ao show que deve continuar, mas agora agora agora resta um corpo que desmorona junto com aquele grupo aquele espaço daquele grupo aquela história aquela fábrica que virou teatro e voltou agora a ser fábrica porque não existe ninguém do outro lado do nosso guichê.

Nós seguimos fingindo conferências e periódicos e artigos e revisões às cegas como se o mundo ainda não tivesse acabado.
Deveríamos sair às ruas como zumbis que somos e ocupar cada espaço vazio cada lugarzinho. Ocupar cada lugarzinho sem nenhum medo de morrer. Somos zumbis.
E sem essa nossa cara disfarçando e nosso público de nós mesmos nossos leitores nós mesmos avaliadores nós mesmos. Nós.

Des-ata. 
Des-cobre.
Ex-cita.

Aquela voz que de tanto querer ser voz vira máquina de fazer voz que canta que fala que palavreia.
Aquele corpo que de tanto querer ser corpo vira anatomia funcional fisiologia desumana.
Aquele texto que de tanto querer ser aceito vira artigo de ser lido por ninguém ou por quem quer fazer mais artigo a ser lido por ninguém.


Parar.
Pausar.
Fomentar no outro algum desejo de nós.
Autofagia causa ânsia.
Fomentar no outro um desejo por nós.
Na pausa. Na ausência. Na suspensão.

Num teatro onde um corpo desmorona e toda voz é ar, todo texto é escrito negando a própria letra.