domingo, 11 de junho de 2017

Todo domingo


Jesus me lembra praça. Que eu ia pra encontrar jesus mas encontrava o pipoqueiro que tinha olhos de amor.

Jesus tinha que dividir atenção com mamãe papai vovó. Perdia. Era segredo gostar mais de mamãe do que de deus.

Tem um jesus guardado numa caixinha de música. Está quietinho lá e não rodopia nem canta quando a gente abre.

Como a gente olhava devagar para o deus que faltava no presépio e ia chegar nas mãos da menina de laço na cabeça! O deus que faltava. A gente esperava o deus o jesus o papai noel e eu não sabia onde começava um e onde terminava outro.

Embrulhavam-se caixinhas de fósforo para serem presentinhos de mentira na árvore de natal.

Tenho mania de felicidade pisca-pisca.

Eu nunca gostei de guardar deus numa caixinha em janeiro.

Deus solto como passarinho canta voa bica lá no quintal da bisa.

Eu ninava passarinho quase morrendo e formiga que estava afogada na pia. Achei que era santa.

Eu já nasci mãe da minha filha. Só não sabia. Hoje sei.

Perigo: segure deus com cuidado para não esmagar seu pescocinho.
Amarelo: teve uma vez que eu vi a verdade enquanto brincava na praia com baldinho.



Todo domingo tento encontrar deus e acabo encontrando minha infância.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

aquele lugar onde vamos morar quando esse mundo acabar

Procuro um lugar para ficar velha.
Abraços flácidos
Sorrisos gastos
Risadas enrugadas
Cabelos prateados.
Velhas.
Onde não se olhe para trás atrás da impossível juventude passada.
Onde olhem para nós a frente em frente velhice conquistada.
Onde nós velhas não queiramos ser como elas
Onde elas queiram ser como nós
Desatadas
Livres

Lá, onde a gente pode ser velha,
Não queremos ter nenhum minuto a menos
Óculos
Vestidos
Largas
Histórias
Seios
Sexo
Líquidas
Escorridas

Para tomar mais daquele vinho ficamos na mesa no mundo juntas.
Para trocar aquelas letras imagens umas com as outras.
Debruçadas nas palavras esquecemos de contar o tempo.
Tempo
Templo
Corpo:
Lugar de se guardar chocolate amoras e cicatrizes.
Lugar que se guarda que se abre janelas portas que aumentam cinturas diâmetros.
Nada fica tanto tempo liso.
Nada fica em tão pouco tempo precioso.
O tempo é fazedor de raridade.
Procuro um lugar para ser velha.
E para me encontrar com outras velhas e podermos rir da vida que passa.
Que possamos rir dos nossos rostos não esticados.
Vai ter ali nesse riso uma beleza.
Dessa beleza faremos nossa juventude.
O que é livre não envelhece.
O que é livre vira história.

Conta-me, tempo.
Pois eu não te contarei mais.
Conta-me.

Para que eu passe em paz.