quarta-feira, 24 de maio de 2017

atravessamento

E como foi que eu vim parar aqui desse lado da trincheira?

Se eu estava outro dia ali negando-me a qualquer tipo de contradição subversão aversão grito insulto?

Como eu logo eu vim parar aqui desse lado da trincheira?

Se alguém na minha frente me diz "parada aí" eu já tenho um lugar. Ele me diz "parada aí" e eu estava andando para ir logo ali viver mais um dia normal. Normal. Normal.

Quando ele me diz "parada aí" e eu  percebo que estou presa nesse pedacinho de vida estou presa nesse pedacinho de terra de tempo de país de lei de papel timbrado.

Eu parada ali entrei na guerra. Por que era preciso ir até o outro lado. Era preciso. Alguém me pôs desse lado. Me ordenou. Para o meu próprio bem. Para mim. Para meu bem.

(parada não calada. falar é caminhar levitando voando sonoramente afeto atravessa e derruba)

Eu falo "Senhor, eu preciso ir para o outro lado buscar pão comida vinho carinho abraço letra música. eu preciso."

Parada aí.

Não se trata mais de ser ou não essa figura de paz que sempre quis ser.

Construíram uma trincheira no meu quintal.

Quando alguém para alguém que tem que seguir alguém explode.

Explode bomba. Explode câncer. Explode canção.

Mas explode.

As linhas imaginárias do mundo. Esse desenho tosco rabisco inútil que diz para o outro "parado aí".

Esses caminhos todos cavados. escavadeiras de escavar gente demolir gente. Esses túneis esses acessos com cartões exclusivos. Esses caminhos todos negados. Esses espaços vazios com dono mas sem gente. Essa gente com dono. Esses donos de gente. Essa terra revirada. Essa trincheira. Essa terra cavada.

Esse lugar de se enterrar.

ou lutar.

sábado, 20 de maio de 2017

Sobre a inutilidade da arte - poema band aid

o que importa para alguém
o que eu digo
se não durmo se não como se não morro

sobrevida

confiar

que poesia poesia poesia

(fala esmurrando ponta de faca pra não caber ponto de interrogação)

que importa se eu danço para alguém ontem danço amanhã
que importa se não cura
que importa que importa

se não come
poesia
se não serve quente fria
poesia


(poema curativo para coagular hemorragia nunca para nunca para de escorrer nunca para de verter nunca estanca nunca palavra nunca basta nunca sempre sempre sempre sangra)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

assombrada

o que acabei de apagar ali.
aquela palavra discurso aquele outro aquela mesa aquela infância aquele vai e vem aquele anda não anda aquela voz trêmula.

assombrada

de um lado aqueles monstros identificados rotulados já sentenciados aqueles que foram realmente aqueles que estiveram realmente que calaram bateram disseram para a menina que fui que ela era feia linda gostosa quando ela estava aprendendo a ser gente de novo. Aqueles. Aquelas. Aquilo tudo já identificado. Voltam vez em quando. Canalhas. No pensamento a ideia de ser maior melhor mais esperta superior melhor melhor melhor. Na rua ao cruzar com eles digo bom dia boa tarde boa noite aos monstros. menininha educada que sou. aversão às confusões aos embates desgastes sorriso escudo me protege de ter que causar em alguém alguma dor. finjo ser minha a dor do outro não porque sou poeta mas porque sou criada mulher para a dor do outro ser minha e meu sorriso ser escudo disfarçado de proteção para mim mas não é para mim. Finjo ser dor mas sou medo.

faltam metáforas quando a dor pulsa.
verdade e poesia são inimigas
ou uma ou outra
medíocre poeta que sou deixo letras virarem essa coisa fluxo
escorro
verdade sem metáfora
cafona
meus poeminhas assombrados por guerreiras decididas aos gritos com palavras emaranhadas de sons gritos de guerra
eu poeminha com vergonha escondido
esconde esconde
não me ache que aqui está quietinho e escuro e quente


de outro lado estão os que são a força que não sou a decisão que não tomo a viagem que não faço porque tenho medo de voar
assombra viver esperando ser alguém que está logo ali.
a sombra
eu sei que nada disso é real por isso assombra.
um grito um soco uma verdade um embate uma decisão uma poética uma escolha
e eu catando letrinhas no jardim
ridícula
Assombra a mulher que não sou porque não quero assombra a mulher que não sou porque não posso

debaixo da cama os mais inofensivos esperam. voltam vez em quando mas estão em caixas organizadoras empacotados e eu os abro quando quero porque também tenho dessa mania de me assombrar por que quero verter alguma coisa.
mutilação

mas aqueles outros todos aquelas impossibilidades gigantescas aquela decisão que não é nada aquela vida que passa sem ser nada de verdade aqueles outros que apontam que abordam que definem que estruturam sem demora os seus conceitos.
Não estão embaixo da cama.
Dormem comigo me acordam me reviram me instigam me provocam.
Assombram esse meu mundinho idiota esse mundo cheio de se se se se se. esse mundo sem sim sim não não. Esse mundo se se se se se.


Esconde esconde
em cima do muro
reticente
ciclo
espiral
afeto
imagem
textura
corpo
seja
grita
escuta
palpita
define
espera
morte

Não encontro palavras para a minha bandeira.
Não encontro bandeira para as minhas palavras.
A solidão é infinita.