quarta-feira, 8 de março de 2017

Carta ao Sr. O.

Sr. O, 

gostaria de dizer ao senhor que seria bom que fôssemos todas explicáveis resumíveis conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente episiotomizadas lavadas cortadas precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível. Mas, Sr. O., algumas de nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vaginas nossos ventres que somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis. Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe. 

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