domingo, 12 de março de 2017

Anatomia em surto: espetos, dedinhos e palavras


Pés unhas estão sagrando na pontinha.

Um gosto de sangue na boca parece tumor silencioso mas é dente gengiva esquecida.

Os olhos vermelhos da lente do fungo do fundo da caixinha.

As mãos pelinhas cantinhos comidos.

Pescoço que dói pesando cabeça em cima.

Ombros que saltam acima querendo fugir da parte martelada pela dor.

Coração doeu de verdade ontem.
Doeu mesmo. Amassou. Centrifugou. Dormi em fuga. Lembrei dos coraçõezinhos de galinha espetados no metal. Provas de um massacre.

O ventre rebate o sonho do bebê que vira ideia.
Ideia não enche barriga de não grávida que não sabe se queria que.

O sexo selado resguardado não quer ter prazer para não confundir a dor das outras partes que choram.

É possível chorar pelo dedinho do pé.

O dedinho do pé imensa fonte de ternura que me senti um pedacinho pequeno e ridículo de carne salgada curtida em sal secando toda água sustentando um corpo que cairia se.
Eu te amo dedinho do pé por parecer exatamente como me sinto agora.

A roupa estraga o contato com a pele.
A roupa não sou eu mas parece.
Parece que eu existo num contorno sintético estampado pendurado amassado lavado passado vestido passado futuro sujo centrifugado. Como o coração. Das galinhas e o meu. Salgados no espeto.

As palavras começaram a aparecer na autópsia dissecação. Como fio sutura costura rasgo. o fio das palavras costura rasgo.
Quando penso pé escrito cada letra vogal consoante acento plural sou mais pé que pisar naquele lugar de ontem.

Quebrei.

Estilhacei cacos meus pelo chão.

Palavras começaram a varrer migalhas cacos farinha de vidro de carne.
Palavra eu te amo.
Mesmo que encerre em mim ciclos de desexistência.
Mesmo que renove em mim esperança de vida estando já num espeto de churrascaria.
Mesmo que me dê a ilusão perigosa da imortalidade.

No emaranhado anatomia confusa largada esparramada ontem senti chão meio sujo com a testa na parede.

Pensar na palavra parede me pôs de pé.
Pensar na palavra pé me fez querer dizer sobre a poeira brilhante que envolve toda dor.
Me quis vir povoar outros futuros mortos.

O amanhã ontem me parecia impossível.

A não ser pela ideia de que outros contornos corpos poeiras poderiam precisar de alguma palavra minha por eu ter quase alcançado o nome daquilo que amassa a gente derruba fere soca.

Por eu quase pegar hoje levanto e já é possível combinar letrinhas e formar palavras e combinar palavras e formar sentidos e combinar sentidos e formar sentimentos.

A cada palavra escrita um desenho na mente contorna corpo dos pés à cabeça.
A cada letra um passo um ponto um arremate um rasgo menor.
A cada letra um fio secreto agudo invisível costura-me.

Sigo em pé. Os dentes hoje mordem corações de ontem.
Entredentes sorrio.
Sorrio escrevo.
Para ter fim as coisas precisam voltar a ser letra.

Todo poema é um epitáfio.




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