sexta-feira, 24 de março de 2017

Castração em 7 cortes

Corte 1

A cachorrinha molhada fica minúscula.
Espanto em mim ao perceber amor morando em pedaço tão pequeno e tão fibroso.
Pedaço de coisa viva gente humana canina é pedaço que se move pelo chão e deita perto da gente e responde quando a gente chama.
Amor é fé.
A cachorrinha molhada minúscula olha e pergunta.
Por que me ama e me deixa cortarem assim a barriguinha?
Ela não pensa nada disso penso eu que sou coisa ser humana.
Parei de comer porco pelo rosado que ela me mostra todas as noites quando chego.
Barriguinha cachorrinha festinha rosada.
Carne vira cadáver e nunca desvira.

Corte 2

O útero retirado.
Sangra.
Nos olhos dela morrem lentos filhotes que não serão.
Castrada.
Choro pelo sangue.
Choro pelos filhotes.
Choro pelo ventre.
Chorei sangue.
Menstruada.
Castradas.

Corte 3

O futuro parece lindo naquele berço onde nino meus sonhos.

Corte 4

Dias desses um jovem foi espancado até morrer.
Eu o conhecia. Eu dei colo. Seria seu aniversário.
Vira e mexe ele vem acenar embaixo da minha pálpebra.
Adeus, professora.
Adeus.
Castrado.
Sem filhos ele.
Sem filho sua mãe.
Sangue.
Espancado.

Corte 5

Quando ar não vira grito e detona bomba nuclear no peito da gente.

Corte 6

Um presidente.
Um governador.
Um prefeito.
Um secretário.

Machezas castradoras secam as tetas que mamadas seriam porque se mama sim em tetas e assim deveria ser.
Teta. Alimento. Aconchego.
Nunca se mamou. Por que nunca houve tetas nessa macheza infinita.
Não se mama.
Se afoga. Se engole. Se ração cápsula proteica em minutos de engolir para sobreviver para trabalhar para sobreviver para trabalhar.
Um mundo sem tetas não escorre. Sem escorrer não germina.
Machezas operam pequenos poderes castradores.
Machezas esquecem-se da própria mortalidade.
Pedra seca lápide de tetas já quase secas.

Corte 7

A cicatriz que nunca fecha.
Rosada.
Toda cicatriz mente ser um passado.
Fechada.
Toda cicatriz é portal.
Atravesso e estou de novo.
Toda cicatriz mente.
Há logo ali nela tudo de novo e toda a dor.
Deitados em cicatrizes coçam as feridas.
Sangue.
Nem dentro nem fora.
Sempre entre.
Sempre dor.
Dormente um futuro que é cortar a cicatriz e entrar de novo de novo de novo de sempre de sempre de novo
Um parto para dentro da ferida.







domingo, 12 de março de 2017

Anatomia em surto: espetos, dedinhos e palavras


Pés unhas estão sagrando na pontinha.

Um gosto de sangue na boca parece tumor silencioso mas é dente gengiva esquecida.

Os olhos vermelhos da lente do fungo do fundo da caixinha.

As mãos pelinhas cantinhos comidos.

Pescoço que dói pesando cabeça em cima.

Ombros que saltam acima querendo fugir da parte martelada pela dor.

Coração doeu de verdade ontem.
Doeu mesmo. Amassou. Centrifugou. Dormi em fuga. Lembrei dos coraçõezinhos de galinha espetados no metal. Provas de um massacre.

O ventre rebate o sonho do bebê que vira ideia.
Ideia não enche barriga de não grávida que não sabe se queria que.

O sexo selado resguardado não quer ter prazer para não confundir a dor das outras partes que choram.

É possível chorar pelo dedinho do pé.

O dedinho do pé imensa fonte de ternura que me senti um pedacinho pequeno e ridículo de carne salgada curtida em sal secando toda água sustentando um corpo que cairia se.
Eu te amo dedinho do pé por parecer exatamente como me sinto agora.

A roupa estraga o contato com a pele.
A roupa não sou eu mas parece.
Parece que eu existo num contorno sintético estampado pendurado amassado lavado passado vestido passado futuro sujo centrifugado. Como o coração. Das galinhas e o meu. Salgados no espeto.

As palavras começaram a aparecer na autópsia dissecação. Como fio sutura costura rasgo. o fio das palavras costura rasgo.
Quando penso pé escrito cada letra vogal consoante acento plural sou mais pé que pisar naquele lugar de ontem.

Quebrei.

Estilhacei cacos meus pelo chão.

Palavras começaram a varrer migalhas cacos farinha de vidro de carne.
Palavra eu te amo.
Mesmo que encerre em mim ciclos de desexistência.
Mesmo que renove em mim esperança de vida estando já num espeto de churrascaria.
Mesmo que me dê a ilusão perigosa da imortalidade.

No emaranhado anatomia confusa largada esparramada ontem senti chão meio sujo com a testa na parede.

Pensar na palavra parede me pôs de pé.
Pensar na palavra pé me fez querer dizer sobre a poeira brilhante que envolve toda dor.
Me quis vir povoar outros futuros mortos.

O amanhã ontem me parecia impossível.

A não ser pela ideia de que outros contornos corpos poeiras poderiam precisar de alguma palavra minha por eu ter quase alcançado o nome daquilo que amassa a gente derruba fere soca.

Por eu quase pegar hoje levanto e já é possível combinar letrinhas e formar palavras e combinar palavras e formar sentidos e combinar sentidos e formar sentimentos.

A cada palavra escrita um desenho na mente contorna corpo dos pés à cabeça.
A cada letra um passo um ponto um arremate um rasgo menor.
A cada letra um fio secreto agudo invisível costura-me.

Sigo em pé. Os dentes hoje mordem corações de ontem.
Entredentes sorrio.
Sorrio escrevo.
Para ter fim as coisas precisam voltar a ser letra.

Todo poema é um epitáfio.




quarta-feira, 8 de março de 2017

Carta ao Sr. O.

Sr. O, 

gostaria de dizer ao senhor que seria bom que fôssemos todas explicáveis resumíveis conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente episiotomizadas lavadas cortadas precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível. Mas, Sr. O., algumas de nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vaginas nossos ventres que somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis. Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe.