terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Infestação

Baratinhas apareceram.

Uma duas três quatro.

Elas passaram pela casa passeando.

Eu não as chamei. Não as quero. Eu as quero longe.

Eu não gosto de baratas mas mantenho a sanidade diante de uma.

Eu tento ser uma pessoa mais controlada assentada organizada delicada centrada a cada dia.

Baratinhas passando perto.

Temos, como costume, a necessidade de matar baratas.

Baratas devem ser mortas.

Pois bem.

Eu, mais centrada, pude olhar nos olhos da barata esses dias.

Não venham dizer que baratas não têm olhos, covardes!

Olhei por um tempo o ritmo das antenas. Olhei a casca toda bem feitinha. Olhei calmamente.

Por que mesmo matamos baratas, afinal?

Os hábitos os costumes as histórias as passagens os esgotos a sujeira o asco tudo no casco da barata.

E nós, portadores de chinelos e polegar opositor, somos nós quem, afinal?

Nossos ascos nossos esgotos nossas sujeiras nossas cascas.

Matem a barata! Sem olhar atentamente o ritmo de suas antenas o tamanho de suas perninhas a luta patética pela vida.

Matem a barata! Sem demorar sem ver a agonia sem pensar nos pequenos mecanismos que lhe conferem o caminhar comer reproduzir fugir lutar.


De perto bem de perto a gente começa a amar a barata.

De perto bem de perto a gente pode amar qualquer coisa.

Cada vez mais longe. Mais o outro. Mais o muro. Mais a rede. Mais a grade. Mais a guarita. Mais o blindado.

De longe bem de longe a gente começa a odiar o ser humano.

De longe bem de longe a gente é capaz de odiar qualquer coisa.


Um grito. Alguém viu a baratinha. Matança.

Crec.

O casco dela.
Meu fio de comoção.

Desesperança.

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