terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

vitrine não estou vendendo nada

Para um lado para o outro olho. Parada. Olho. Atrás. Um rosto. Um cara. Olhos que não chegam aos meus olhos. Param.

Para quem quer pé para no pé que pé gostosinho pintadinho de vermelho te chupo esse dedão
Para quem quer perna perninha gostosinha e tem quem se irrite que a perna é fina perninha mixuruca vagabunda piranha da perninha fina.
Para quem quer cintura umbigo barriguinha de fora um olho parado no lugar onde dorme meu útero meu ovário onde dorme meu umbigo que foi ligação com minha mãe e eu quero não ter nada disso em mim para não ter que ter olhos parados nisso. sagrada imagem quebrada cacos. engole o choro menina. você só deu cinco passos.
Para quem quer peito. peitinho delícia pequeno tá com tudo em cima mulher tem peito peito teta seio que amamentou minha filha que tem que por paninho que tem que tem você a ver com meus seios. queria não ter seios agora queria ter só lá naquele lugar onde os olhos se encontram. Respira menina que ainda não andou um quarteirão. mimimi. tá pedindo. vagabunda. tá olhando de um jeito que quer.
Para quem quer pescoço. pescoço carne dura. tem quem veja tem quem grite tem quem sufoque. pescocinho delícia. tô te elogiando. você deveria agradecer.
Para quem quer rosto. uma boca aquela que tá em mim para que eu fale coma beije para que eu grite para que eu tenha a cor que quiser. boquinha bonitinha. adoro boquinha que faz biquinho. buzina. biquinho. gostosinha.
Para quem quer tudo não tem tudo que tudo não anda na rua passando para ir ali. tudo para fala olha responde.
Para quem quer tudo não quer só a mudez da carne recortada em close de revista de moda de desejo que só vai e não volta.
Para quem quer tudo não sou vitrine.
Não sou açougue.
Não ando para estar a venda.
Não vendo abaixo cabeça.
Cabeça. Cabelo. Comprido. Do jeito que eu gosto.
Tinha um poema aqui antes de você chegar e gritar que queria me comer.
Você não pode me comer.
Não sou comestível.
Não sou corte.
Não sou venda em embalagem.
Que susto que medo que dor.
Abaixo a cabeça.
Quanto tinha 14 anos quando tinha 20 quando tenho 30 quando terei 40.
Quando terei muito mais serei então a piada da véia da pelanca da teia de aranha da teta da louca.
Serei de novo vitrine do que não vendo só caminho pela rua.
piada padaria esfria café doce.
piada televisão fofoca recorte de novo.
Calma menina que a porta tá quase ali.
Fechada. Soluço.
Reconectar todos os dias as partes fatiadas destrinchadas expostas em ganchos.
Olho no espelho.
A parte de que não se fala se grita se buzina. A parte olhos sem venda.
Sem venda olhos no espelhinho do banheiro choram. Salgam a carne. Conserva.
Na carne curtida há mar.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Que pena

Teve aquele lugar onde eu quis muito que a gente morasse.

Fui pra lá e montei casinha fogãzinho ninho carinho cantinho.

Estive lá por tanto tempo e foi bom te ver chegando devagar chegandinho.

Estive lá e acendi lareira pra te esperar quente quentinha quietinha.

Você chegando parava vez em quando para cortar uma árvore.

Eu pensava que era para a nossa lareira.

Era não.

Era para outra coisa. Eu sou míope. Não vi entendi. Só sei que parava e parecia ter um motivo para parar.

Você parava e parecia que era por mim por nós por um futuro de silêncio cama caminha caminho de mãos dadas.

Era não.

Você parou de novo e eu fiquei olhando de longe.

Corri me perfumar escrever bilhetinho poeminha textinho coraçãozinho.

Você parou e gritou comigo para que eu fosse até você.

Eu achei que era hora de estar na casinha construída e fiquei sem saber pra onde.

Você chamou de novo e eu fui.

Fui devagar andando mas era meio frio e tinha menos inho ninho carinho.

Era jeito estranho de ser gente grande que ama.

Era jeito seu. Eu não sou seu. Jeito tem que ser minha. Força para estar na trilha fria.

Eu parei.

Você parou.

A casinha está quentinha quietinha lá atrás.

Você correu passou por mim entendeu sentiu talvez tenha chegado até você o cheiro de bolo quente que eu estava assando.

Você na nossa casinha me acena da janela.

Que bom que você chegou.

Que pena que eu já fui embora.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Infestação

Baratinhas apareceram.

Uma duas três quatro.

Elas passaram pela casa passeando.

Eu não as chamei. Não as quero. Eu as quero longe.

Eu não gosto de baratas mas mantenho a sanidade diante de uma.

Eu tento ser uma pessoa mais controlada assentada organizada delicada centrada a cada dia.

Baratinhas passando perto.

Temos, como costume, a necessidade de matar baratas.

Baratas devem ser mortas.

Pois bem.

Eu, mais centrada, pude olhar nos olhos da barata esses dias.

Não venham dizer que baratas não têm olhos, covardes!

Olhei por um tempo o ritmo das antenas. Olhei a casca toda bem feitinha. Olhei calmamente.

Por que mesmo matamos baratas, afinal?

Os hábitos os costumes as histórias as passagens os esgotos a sujeira o asco tudo no casco da barata.

E nós, portadores de chinelos e polegar opositor, somos nós quem, afinal?

Nossos ascos nossos esgotos nossas sujeiras nossas cascas.

Matem a barata! Sem olhar atentamente o ritmo de suas antenas o tamanho de suas perninhas a luta patética pela vida.

Matem a barata! Sem demorar sem ver a agonia sem pensar nos pequenos mecanismos que lhe conferem o caminhar comer reproduzir fugir lutar.


De perto bem de perto a gente começa a amar a barata.

De perto bem de perto a gente pode amar qualquer coisa.

Cada vez mais longe. Mais o outro. Mais o muro. Mais a rede. Mais a grade. Mais a guarita. Mais o blindado.

De longe bem de longe a gente começa a odiar o ser humano.

De longe bem de longe a gente é capaz de odiar qualquer coisa.


Um grito. Alguém viu a baratinha. Matança.

Crec.

O casco dela.
Meu fio de comoção.

Desesperança.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Logo ali infinito

A coisa mais terrível de ser triste é saber que a felicidade está a um passo.
Um passo logo ali infinito.

Quase.
Amanhã.
Talvez.

Tenho sono.
Mas não durmo.
A coisa mais terrível de ter sono e não dormir é saber que o sono está ali.

Do lado.
De dentro.
Profundo.
Pertinho.
Encosta coça areia pálpebras.

Nesse espacinho entre o sono e o dormir, mora o mundo dentro dos meus olhos.

Nesse espacinho entre ser feliz e ser triste, mora o nada fino película fosca opaca que quase sou eu querendo ser mas não sendo não.

Não.

Hoje o dia passou.
Amanhã talvez passe.